O que Bento Gonçalves, Harry Potter e Frodo têm em comum?
< voltar
Cresce no mundo o turismo cinematográfico, onde turistas e comunidade se envolvem na magia das telonas, gerando benefícios sociais e econômicos
Recentemente os fãs da saga Harry Potter entraram em polvorosa com o anúncio de que a Warner Bros havia aberto o estúdio onde foram gravados todos os filmes da série para visitação. O tour contempla os cenários do filme, como por exemplo o salão principal onde eram feitas as refeições, a sala de aula onde os alunos aprendiam a fazer poções mágicas e o dormitório dos meninos. Uma as principais atrações é a sala onde os visitantes podem usar uma capa e andar na vassoura mágica de Harry, a Nimbus 2000, em frente a um fundo verde, onde aprendem como foram criados os efeitos especiais do filme.

A Nova Zelândia, cenário das sagas O Senhor dos Aneis e Hobbit, também se preparou para receber turistas interessados em conhecer os locais onde foram feitas as locações. No ‘Hobbiton’ foram reconstruídas as ruelas percorridas por Frodo e Gandalf de charrete; a pequena casinha do hobbit Bilbo, onde Frodo também morou; as macieiras; os jardins; a taverna; com todo o charme da Terra Média exibido nos cinemas pelas trilogias de Peter Jackson. Ao todo são 44 casas de Hobbits construídas em diferentes escalas para as trilogias e e recriadas para o deleite dos turistas.
     Outro exemplo de turismo cinematográfico, ou turismo de cinema, é a França, que criou um jogo temático para turistas que passeiam pelas ruas da cidade-luz seguindo as pistas do filme O Código da Vinci. O inóspito Estado de Iowa, nos Estados Unidos, passou a receber 35 mil turistas por ano interessados em conhecer o estádio de baseball onde se passava a trama do filme Campo dos Sonhos, com Kevin Costner.

     Segundo um estudo feito na Espanha, são três os fatores que estimulam as motivações internas dos turistas cinematográficos: o lugar (cenários e paisagens), as personalidades (a estrela do filme ou personagem) e as características artísticas (o gênero do roteiro). E o retorno é expressivo. Os indicadores econômicos de países que investem no segmento, são animadores. Especialistas ingleses, por exemplo, estimam que cada libra investida na promoção cinematográfica gera 17 de retorno.
E o Rio Grande do Sul?

     O turismo cinematográfico ganhou inspiração e talvez uma de suas maiores expressões no início dos anos 2000 no Rio Grande do Sul, com a minissérie A Casa das Sete Mulheres, inspirada na obra da escritora Letícia Wierzchowski. A Globo exibiu 48 capítulos no ano de 2003, com a participação de autores como Camila Morgado, Nívea Maria, Marcello Novaes, Murilo Rosa, Tarcísio Filho, Juliana Paes, Werner Schünemann, Thiago Lacerda e Giovanna Antonelli nos papéis centrais.

     Segundo a Secretaria Municipal de Turismo de Cambará do Sul, que serviu de cenário para a minissérie, a produção da Casa das Sete Mulheres impulsionou o turismo local, causando expressiva mobilização interna, uma vez que atuaram aproximadamente 6,5 mil moradores da cidade. A cidade de São José dos Ausentes, por exemplo, duplicou a quantidade de pousadas nos primeiros anos, e foi feita mais uma série de benfeitorias e investimentos em estrutura na cidade, graças à demanda de turistas, que ligavam para as agências de viagens dizendo que gostariam de conhecer o lugar onde foram feitas as cenas iniciais do filme.

     Em 2004, o Governo do Rio Grande do Sul, com coordenação da Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (AGDI) procurou implementar um programa de metas estabelecidas para a criação de uma Comissão de Filmes (film commisssion) estadual, com a proposta de dar visibilidade a cenários regionais por meio de produções audiovisuais, minisséries e filmes, para atrair cada vez mais visitantes ao Rio Grande do Sul. O portfólio dividia o estado em nove regiões de acordo com características turísticas e culturais, com foco nos imigrantes que contribuíram para a formação dos municípios. Em 2016, porém, o cenário é desolador. Diferentemente de Londres e da Nova Zelândia, o Itaimbezinho, no Parque Nacional de Aparados da Serra, não recebeu investimentos com vistas ao turismo cinematográfico. Matéria do jornal Zero Hora em março de 2016, que fez uma radiografia dos parques gaúchos, evidenciou o pouco ou nenhum investimento nos locais.

     A Casa das Sete Mulheres não foi o único trabalho cinematográfico no Rio Grande do Sul. Os principais trabalhos que proporcionaram visibilidade para o Rio Grande do Sul, unindo turismo com cultura local, foram Anahy de las Misiones (1997), rodado em Uruguaiana; Netto Perde sua Alma (2001), também filmado em Uruguaiana e em outros municípios da Região dos Pampas; e A Casa das Sete Mulheres (2003), gravada em Cambará do Sul, São José dos Ausentes, Pelotas e Uruguaiana.
Em 2015, segundo a Secretaria de Turismo de Bento Gonçalves, foram gravados no município 11 produtos audiovisuais, entre documentários, filmes e longas-metragens. Em 2016, passada pouco mais da primeira quinzena de janeiro, Bento Gonçalves já recebeu a primeira produção. A região foi a escolhida para as gravações de Bem ao Lado, dirigido por Márcio Kinzeski (Zeski Filmes).
 
Cultura gaúcha e a minissérie A Casa das Sete Mulheres

     No período em que a minissérie foi exibida, o Movimento Tradicionalista Gaúcho era presidido por Manoelito Savaris. O MTG é a federação dos CTGs – Centros de Tradições Gaúchas, que somam 1,7 mil sedes somente no Rio Grande do Sul. Na época, Savaris publicou um editorial externando sua posição e do Movimento. “Analiso a produção procurando entender a sua motivação e considerando que não se trata de um documentário, mas de uma criação artística cujo pano de fundo e relação com a realidade, diz respeito ao decênio heroico, quando os gaúchos se rebelaram contra o Império Brasileiro e fizeram uma Revolução com tentativa de independência do Estado do Rio Grande do Sul”, afirma.
Savaris, no documento, destacou que as informações de caráter histórico sobre a Revolução Farroupilha (Guerra dos Farrapos) eram, na sua maioria, fiéis ao que se conhece sobre o evento. A cronologia dos fatos, segundo ele, foi respeitada e foram mostrados de acordo com a literatura. “É claro que foram pinçadas, pela produção, algumas situações marcantes, enquanto outras foram deixadas de lado. A invasão de Porto Alegre, em 19 de setembro, por exemplo, não foi tratada, mesmo que tenha sido o marco inicial da revolta”, ensina.

     Savaris também observou que, com relação aos personagens, houve na sua opinião uma clara tentativa de “endeusar” Bento Gonçalves, de “demonizar” Bento Manoel e de desmerecer David Canabarro:

     “Bento Gonçalves não foi santo, em nem poderia sê-lo. Era um militar proprietário de terras, idealista e mau estrategista, adaptado ao seu tempo, com virtudes e defeitos já muito explorados pela literatura. Bento Manoel não foi um demônio e nem com ele fez pacto. Seu papel era o de chefe militar sem engajamento efetivo e sem compromisso ideológico. Foi uma espécie de mercenário sem pagamento. Com relação à figura de David Canabarro, parece-me estar havendo o maior erro. Pintá-lo como promíscuo, relapso e com fisionomia de alcoólatra é afrontar a história e desconhecer os registros”.

     Para Savaris, os cenários da “Casa das sete mulheres” não poderiam ter sido melhor trabalhados. Em várias situações, afirmou, não houve relação entre o fato e o cenário apresentado. Ele cita como exemplo o fato de que não houve qualquer movimentação de tropas nos Aparados da Serra, especialmente no Itaimbezinho, e, no entanto, o fato de aproveitar a oportunidade para mostrar imagens de lugares magníficos e pouco conhecidos do nosso Estado merece elogios. “Devemos nos lembrar que não se trata de um documentário e sim de uma produção artística”, finalizou.