A vida (e morte?) dos festivais nativistas?
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O que músicas como Desgarrados, Tertúlia e Batendo Água têm em comum, além de serem sucesso? Todas foram reveladas (e a lista neste sentido é expressiva) em festivais de música nativista realizados no Rio Grande do Sul.
Cerca de 70% das músicas muito conhecidas do grande público surgiram nos festivais nativistas do Rio Grande do Sul. Quem garante é o comunicador Jairo Reis, apresentador do programa Do Litoral à Fronteira, que vai ao ar aos domingos de manhã, das 6h às 8h, na Band FM. Ele é, há quatro décadas, ‘habitué’ dos festivais realizados no Estado.

Ao longo de sua carreira como jornalista já cobriu mais de 200 eventos, e, como produtor, ajudou a realizar pelo menos 16. De posse de mais de 1.500 cds e dvds de festivais, que compõem um dos maiores acervos especializados no Estado, ele enumera canções de grandes sucessos que, antes de chegarem às ‘paradas musicais’, buscaram a aprovação e aplauso do público em dezenas de festivais realizados. São alguns exemplos o Canto Alegretense, apresentado na 2ª Tertúlia Musical Nativista, realizado em Santa Maria; Céu, Sol, Sul, Terra e Cor, que concorreu na 3ª Ciranda Musical Teuto Rio-grandense, em Taquara; e a famosa Desgarrados, que teve seu primeiro palco em Uruguaiana, na 11ª edição da Califórnia da Canção Nativa. A lista (veja relação completa ao final da entrevista) tem ainda Esquilador, Eu Sou do Sul, Guri, Tertúlia...

Vem pro Mate: Como começou essa paixão pelos festivais?
Jairo Reis: Acompanho os festivais há cerca de 40 anos, desde quando o movimento nativista começava a dar seus primeiros passos. Lembro de ouvir as primeiras edições da Califórnia da Canção Nativa, de Uruguaiana, através de transmissões realizadas pela Rádio Gaúcha, pela Guaíba e pela Difusora, emissoras tradicionais de Porto Alegre. Depois passei a adquirir os discos dos festivais, hábito que mantenho até os dias de hoje.  Meu acervo de LPS, Fitas K-7, CDs e DVDs de festivais chega perto de 1.500 exemplares. A partir da década de oitenta decidi acompanhar mais de perto os eventos. Ser apenas ouvinte das transmissões de rádio já não me satisfazia. Então, comecei a assistir “in loco” os festivais.  Naquela época, tive o privilégio de testemunhar o surgimento do Ronco do Bugio, de São Francisco de Paula; da Moenda da Canção, de Santo Antônio da Patrulha, minha cidade natal; da Tafona da Canção Nativa, de Osório, entre outros. Tempos depois, minha paixão pelos festivais, somada ao conhecimento adquirido sobre o tema, se transformou em profissão, me direcionando aos segmentos da comunicação e da produção de eventos.
 
Vem pro mate: Nessa época já atuava como jornalista?
Jairo Reis: Na década de setenta, eu ainda era um guri que gostava de ouvir rádio.  Nos anos oitenta, eu passei a frequentar os festivais.  Minha trajetória como profissional de imprensa começou bem mais tarde, em 1997, quando fui convidado para atuar como comentarista de festivais na Rádio Osório e como colunista de cultura gaúcha no Jornal Painel, da cidade de Osório, onde residi por quatro anos. No final do ano 2000, mudei-me para Porto Alegre, movido pelos convites para trabalhar no Jornal do Nativismo e na Rádio Rural, veículos de comunicação através dos quais pude aproximar-me ainda mais do universo nativista do estado. No Jornal do Nativismo, assinava a coluna “Do Litoral à Fronteira”, na qual escrevia quase que exclusivamente sobre festivais.  Na Rádio Rural, apresentei vários programas e transmiti muitos eventos, o que me fez alcançar a marca de atuação profissional em 200 transmissões de festivais.  Em 2013, me desliguei do Grupo RBS e vinculei-me à Rádio Bandeirantes, emissora onde produzo e apresento, aos domingos, o programa Do Litoral à Fronteira, durante o qual destaco a cultura gaúcha, com ênfase aos festivais de música e de poesia.
 
Vem pro mate: Em alguns desses festivais você também atuou como produtor?
Jairo Reis: Como falei anteriormente, além das minhas atividades no ambiente da comunicação, desenvolvo, há 16 anos, projetos como produtor de eventos, notadamente de festivais nativistas, tendo atuado em diversos deles, como Tafona da Canção Nativa, de Osório; Sesmaria da Poesia Gaúcha, de Osório; Canta Tchê, de Alegrete; Laçador do Canto Nativo, de Porto Alegre; Ronco do Bugio, de São Francisco de Paula; Garimpo da Poesia Gaúcha, de Soledade; Canto Missioneiro, de Santo Ângelo.  Especificamente sobre os festivais que já transmiti, em nenhum deles eu atuei como produtor, por entender que transmitir e coordenar simultaneamente um festival são tarefas incompatíveis. Se transmito, não coordeno, e vice-versa.
 
Vem pro mate: Os desafios de cobrir, como profissional de imprensa, e realizar, como produtor, são muito diferentes?
Jairo Reis: É temerário estabelecer um paralelo entre estas duas importantes atividades, pois são distintas, embora desenvolvidas no mesmo cenário.  Uma cobertura jornalística ou radiofônica pode ser simples ou trabalhosa, dependendo do perfil profissional de quem a realiza.  Existem profissionais de imprensa mais meticulosos, que gastam tempo pesquisando e elaborando material sobre o festival a ser trabalhado.  Outros preferem deixar que os acontecimentos norteiem as ações, apostando no improviso e no conhecimento adquirido. Para qualquer um destes comportamentos, os preparativos podem iniciar um ou dois dias antes e se encerram com o próprio evento, quando muito, alguns dias depois, dependendo da programação do veículo.  Já as incumbências inerentes à produção e realização de um festival requerem mais envolvimento, dedicação e conhecimentos específicos, antes, durante e depois do evento.  Elaborar e expedir regulamento, acolher e catalogar as inscrições, preparar e realizar a triagem das obras inscritas, informar compositores, imprensa e público sobre as obras classificadas, elaborar roteiros e planilhas, contratar empresas e profissionais para prestarem serviços, preparar o local dos acontecimentos, realizar o evento,  confeccionar CD e DVD, prestar contas etc... , são tarefas que demandam um tempo considerável: no mínimo seis meses de antecedência e uns 60 dias após o festival.
 
Vem pro Mate: Na sua opinião, quais os principais festivais do Rio Grande do Sul?
Jairo Reis: Embora claudicante, a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana ainda é o principal festival do Rio Grande do Sul. Criada em 1971, ela é a “célula mater” do movimento nativista do estado. No seu rastro, e seguindo o seu modelo inicial, surgiram mais de 100 festivais ao longo destes 45 anos, no Rio Grande do Sul e fora dele.  A Califórnia tem passado por dificuldades administrativas nos últimos dez anos, mas isto não é suficiente para desprezarmos sua importância histórica e cultural. Além da Califórnia, outros festivais, dentre os cerca de 40 que têm sido realizados anualmente no estado, também podem ser relacionados entre os principais do Rio Grande do Sul.  Não quero parecer injusto apontando somente alguns, mas é inegável a representatividade de eventos longevos como a Coxilha Nativista de Cruz Alta; Carijo da Canção Gaúcha de Palmeira das Missões; Tertúlia Nativista de Santa Maria;  Moenda da Canção de Santo Antônio da Patrulha; Tafona da Canção Nativa de Osório;  Gauderiada da Canção Gaúcha de Rosário do Sul; Reponte da Canção de São Lourenço do Sul; Ronco do Bugio de São Francisco de Paula.  Mais recentemente surgiram outros festivais que igualmente merecem ser lembrados, como o Canto Missioneiro da Música Nativa de Santo Ângelo; Canto de Luz de Ijui; O Rio Grande Canta o Cooperativismo, entre outros.
 
Vem pro mate: Os festivais ainda são importantes palcos para revelar novos talentos?
Jairo Reis: Sim. Foram, ainda são e sempre serão muito importantes. Um contingente expressivo de grandes nomes da música regional gaúcha atual, compositores, intérpretes e instrumentistas, captaram, no ambiente dos festivais, os principais incentivos para suas bem-sucedidas carreiras. Podemos citar como exemplos mais notórios os cantores Luiz Marenco, Joca Martins e a dupla César Oliveira e Rogério Melo, que têm servido de inspiração para uma nova geração de artistas gaúchos. A propósito disto, é importante dizer que hoje em dia existe um número considerável de jovens e talentosos artistas participando dos festivais nativistas, principalmente instrumentistas e intérpretes. Uma das justificativas para isto pode ser a frequente realização de certames infanto-juvenis, simultaneamente aos festivais profissionais. Alguns exemplos:  Coxilha Piá, Carijinho, Canto Piá Missioneiro, Tertulinha, Guyanuba Piá, Gauderiada Mirim, Ronco do Bugiozinho, Acampamentinho, entre outros. Estes eventos dão experiência e confiança necessárias para a gurizada seguir pavimentando a estrada que leva ao profissionalismo e ao eventual sucesso.
 
Vem pro Mate: Que mudanças você percebe nesses eventos ao longo dos últimos anos?
Jairo Reis: No tocante à parte estrutural, não houve mudanças relevantes. Os festivais, com raras exceções, têm quase todos o mesmo modelo desde a primeira edição, que por sua vez, já foi baseado no formato da Califórnia.
No aspecto administrativo, me parece que o profissionalismo das atuais comissões organizadoras e também de alguns prestadores de serviço, se configure numa mudança positiva e importante.  O aumento significativo no número de músicas inscritas também é outro fato que merece ser citado. No entanto, a facilidade de comunicação dos tempos atuais, ao mesmo tempo em que fez crescer o volume de inscrições, proporcionou o aparecimento de muitas obras poético-musicais de qualidade duvidosa.  Apesar disso, tem surgido muita música boa nos festivais dos últimos tempos.  Afirmar que “nada presta” seria falta de consideração e uma baita injustiça com aqueles que dedicam suas vidas a este movimento cultural e artístico.
 
Vem pro Mate: Que futuro você desenha para estes festivais? Algumas pessoas pintam um cenário pessimista.
Jairo Reis: Evidentemente que este tema nos convida a uma discussão mais acalorada e sob os mais variados prismas, mas, num primeiro momento, eu discordo desse “cenário pessimista”.  Esta afirmação provavelmente venha de pessoas que não analisam os festivais de forma abrangente, preferindo julgá-los exclusivamente pela sua qualidade poético musical, por exemplo, adotando por critério o seu próprio gosto pessoal.  Esquecem que estes eventos continuam fazendo despertar o interesse pela cultura, pelo folclore e pela história do Rio Grande do Sul, divulgando estes aspectos e fazendo-os chegar ao grande público. Além disso, são fomentadores de desenvolvimento para diversos municípios do estado e geradores de trabalho e renda para uma legião de profissionais. Apenas por estes motivos já merecem ser respeitados e valorizados.  É importante lembrar que, no ano de 2015, foram realizados no Rio Grande do Sul 40 festivais de música e quatro de poemas.  Desta “lavoura” poético musical brotaram, e foram registrados em disco, aproximadamente 40 poesias e cerca de 500 músicas, todas inéditas, muitas delas com letras de excelente qualidade, melodias bem concebidas, arranjos tecnicamente perfeitos e interpretações magistrais. Em 2016, a agenda dos festivais prevê a realização 52 eventos, cinco de poesia e 47 de música.  É impossível menosprezarmos estes parâmetros e, acima de tudo, negligenciarmos a importância social, artística e cultural deste universo. Prefiro acreditar que os festivais estão em plena atividade e alcançando seus principais objetivos, quais sejam, de propagar a música e a poesia, nativista e regional, e de oferecerem seus palcos para apresentações de artistas consagrados e para o surgimento de novos talentos.  Vida longa aos festivais!!!!
 
Alguns dos principais sucessos apresentados pelos festivais
Ainda Existe um Lugar – 6º Sinuelo da Canção – São Sepé
Bailanta do Tio Flor -  1ª Coxilha Nativista – Cruz Alta
Batendo Água - 17ª Coxilha Nativista – Cruz Alta
Brasil de Bombacha – 10º Ronco do Bugio – São Francisco de Paula
Cabo Toco – 5ª Vigília do Canto Gaúcho – Cachoeira do Sul
Caçapavana – 4º Grito de Bravos   - Lavras do Sul
Campeiro do Rio Grande – 14º Carijo da Canção – Palmeira das Missões
Canto Alegretense – 2ª Tertúlia Nativista – Santa Maria
Céu, Sol, Sul, Terra e Cor – 3ª Ciranda Musical - Taquara
Chamamecero – 10º Reponte da Canção – São Lourenço do Sul
Coplas de Viramundo – 4ª Camparsa da Canção – Pinheiro Machado
Desgarrados -11ª Califórnia Da Canção - Uruguaiana
Diário de Fronteiriço – 18º Ponche Verde – Dom Pedrito
Entrando no M’Bororé (Uma tarde no Corredor) – 12ª Coxilha Nativista – Cruz Alta
Esquilador - 9ª Califórnia da Canção - Uruguaiana
Eu Sou do Sul – 22ª Califórnia da Canção - Uruguaiana
Guri – 13ª Califórnia  da Canção - Uruguaiana
Lago Verde Azul –  11º Reponte da Canção  - São Lourenço do Sul
Milonga Abaixo de Mau Tempo – 7ª Moenda da Canção – Santo Antônio da Patrulha
Morocha – 4ª Coxilha Nativista – Cruz Alta
Não Podemo Se Entregá Pros Home – 12ª Califórnia da Canção - Uruguaiana
Negro da Gaita - 7ª Califórnia da Canção - Uruguaiana
Os Cardeais – 3º Musicanto – Santa Rosa
Pedro Guará – 2ª Califórnia da Canção - Uruguaiana
Pra Bailar de Cola Atada – 13ª Vigília do Canto Gaúcho – Cachoeira do Sul
Quando o Verso Vem Pras Casa – 9ª Tafona da Canção - Osório
Recuerdos da 28 – 10ª Califórnia da Canção - Uruguaiana
Segredos do Meu Cambicho – 5ª Coxilha Nativista – Cruz Alta
Tchê Loco – 3º Musicanto – Santa Rosa
Tertúlia – 12ª Califórnia da Canção - Uruguaiana
Um Mate Por ti – 7ª Seara da Canção - Carazinho
Um Pito –  2º Grito do Nativismo - Jaguari
Veterano – 10ª Califórnia da Canção -  Uruguaiana